Blog do Prof Fernando Dias Andrade


Recomendações para o Trabalho escrito

18/06/2008 10:04:09

Caros alunos da UC Teoria do conhecimento I,

            As notas do Trabalho 1 (sobre Descartes) ainda devem demorar um pouco a sair, correndo mesmo o risco de serem divulgadas só no prazo oficial (julho). Os problemas são muitos e as anotações também são várias.
            De qualquer modo, adianto observações que valem em geral para todos, e que devem ser levadas em consideração agora, na finalização do Trabalho 2 (sobre Espinosa):
            Atenham-se ao tema. Muitos fizeram a dissertação sobre Descartes sem mostrar que sabiam do que estavam falando. O tema da dissertação sobre Descartes era a validade, a partir das Meditações metafísicas, da idéia de que o método é necessário para a verdade. No trabalho 2, o tema é a validade, a partir da parte II da Ética, da idéia de que o verdadeiro é índice de si mesmo e do falso. Não se trata de fazer uma dissertação que caminhe para qualquer lado, mas sim de efetivamente dar solução ao problema que é colocado pelo tema. O que quero saber, no trabalho 2, é o que Espinosa entende por essa afirmação segundo a qual “O verdadeiro é índice de si mesmo e do falso” e, também, como isto está posto na parte II da Ética.
            Sejam claros. Importa menos realizar um texto bonito e mais chegar a um texto claro. De nada adianta escrever um texto retoricamente ousado e não apresentar reflexão e esclarecimento do tema proposto. Lembrem-se do ideal de clareza e distinção elogiado por Descartes.
            Expliquem os conceitos. Uma das tarefas obrigatórias de uma dissertação de Filosofia é explicar os conceitos discutidos. Se o tema do Trabalho 2 é esse, a dissertação deveria explicar com clareza o que são, para Espinosa, a verdade, o verdadeiro, o falso, a idéia verdadeira, e assim por diante.
            Cuidado com os conceitos. Um dos maiores problemas verificados no Trabalho 1 é que muitos de vocês tentam dizer coisas a respeito da verdade e do método em Descartes sem saberem o que é seja a verdade, seja o método, em Descartes. Saibam o que significam os termos que utilizam. Não utilizem termos de cujo sentido ainda não se sintam seguros (o termo não fará sentido no texto). Não se trata de evitar falar desses termos, e sim de estudar o seu significado a fim de poder explicá-los. Filosofia é isto.
            Expliquem o texto do filósofo. Ler um filósofo é, também, analisar seu texto, explicar seu texto. Apresentar opiniões ou considerações genéricas sobre o que parece ser o pensamento do autor lido de nada adianta para conhecê-lo ou fazê-lo conhecer. Levem a sério a idéia de que aqui fazemos leitura de texto e tornem o próprio texto de vocês um instrumento de leitura e explicação de um texto filosófico.
            Estudem os comentadores. Além do próprio filósofo, sempre há comentadores que estudaram aquele mesmo problema. Aqui também se trata de investigar quem seriam esses comentadores (exemplo: os citados na bibliografia do plano de ensino) e identificar o que cada um disse sobre aquele problema. Algo que se valoriza muito seja num artigo, numa dissertação, num seminário, num projeto, é o talento do estudante em identificar o que outros disseram e resolveram sobre aquele assunto, e melhor ainda se for sobre aquele mesmo trecho do texto do filósofo.
            Provem o que alegam. Ou seja, sempre que alegarem que o filósofo estudado ou que o comentador pesquisado disse isso ou aquilo, provem-no, fazendo tanto a citação (no limite do que for pertinente) e, também, apresentando a devida referência em nota de rodapé (é imperativo citar a localização no livro). Ao final da dissertação, deverá ser apresentada a bibliografia citada, ou seja, não a bibliografia que vocês alegam ter lido, e sim a bibliografia que efetivamente foi lida, tanto que está sendo citada no interior da dissertação.
            Valorizem a reflexão. Não se trata de fazer, dessa tarefa de leitura do filósofo, um trabalho mecânico. Ao lado de apresentar o que o filósofo pensa e o que os comentadores dizem dele, trata-se também de fazer a sua própria reflexão. Mas por reflexão, aqui, entenda-se não uma fantasia criativa ou imaginativa, e sim uma reflexão rigorosa. Filosofia também é isto. No texto, a reflexão pode estar presente tanto de ponta a ponta quanto pode comparecer em momentos separados daqueles em que se objetiva empreender efetivamente a análise do texto. Cada um faz de um jeito. Mas é valoroso mostrar que se procura exercitar a própria reflexão de maneira que ela seja pertinente.
            REVISEM O TEXTO. Não entreguem seu texto enquanto contiver um único erro de português ou de estilo. Eu tenho perdido mais tempo corrigindo esses erros de português e de estilo do que com a análise propriamente filosófica do texto. Um texto com erros de português pode se tornar um texto absolutamente sem sentido, e é inaceitável que um aluno na universidade erre ao escrever.
            Estas recomendações valem também para a versão escrita do seminário. E, de modo geral, para tudo o que vierem escrever doravante.
            10:34:13



Escrito por Fernando Dias Andrade às 10:36:15
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Um poema de novembro de 1991

f

 

Ouvi:

“Existe Filosofia?”

 

Minha certeza é completa:

com esta pergunta é que devo,

Aqui, começar,

Tudo começar.

Por um momento

(justamente o em que a digo, e note-se, escrevendo-a)

, de imediato me detenho

nos considerares procedentes

, Inevitáveis, todos;

E todos, apesar de oriundos da Certeza mais profunda

(à qual o racionalista experimentado fará questão de nominar,

qual um seguro conceito de crença)

, vêm sem falta,

mas, ainda assim

enquanto uma Dúvida intensa,

que vejo,

Já,

Membros Múltiplos d

O Cerne,

Multiplicar

 

O Cerne: A Dúvida.

(a Dúvida nasce para confirmar sua mãe, a Certeza)

A Certeza.

Verdadeiramente é ela

– A que imperiosamente ouvimos

(Eu que não fui surdo e vocês Que não foram surdos)

: “Existe Filosofia?”

: A fala que de fato deve ser soada:

SOM

: Fenômeno,

diz-se Voz e faz-se

Fato: Certeza

: também ela, O Cerne

 

: A Dúvida: Apesar da Mãe,

Deve mesmo ser assim, desse modo como aqui foi

[, “Existe Filosofia?”]

, ainda que entre aspas,

que pode, ou deve,

ser melhor traduzida em escrito?

, Esta é a solução mais próxima do

Ideal [= ideal Meu]?

(Quanto a isso inquirido, o Filósofo se transforma:

ri e não responde, sem sair do seu lugar;

com isso preservando-se na sua posição funcionarial

e afastando-se de sua situação de Homem.)

 

– O Filósofo!

 

– Procurei-o,

pensando-o um Algo,

de Humanista a Humanitário, e

O que tive foi um nem-homem,

infelizmente.

(: decepção penetrante. grande frustração.

O mau-encontro presenteia com a desconsideração mais vil,

e pelo lado com que lhe procurei com esperança e virgindade,

volto amargurado e derrotado em meus sentimentos.

[– O golpe de cinismo afeta o coração

mas não enfraquece a razão])

O Filósofo.

A Filosofia.

Locados.

Descartados.

 

Fernando Dias Andrade.



Escrito por Fernando Dias Andrade às 00:03:02
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Recomendações para um bom seminário [Parte 2 de 2]

[Continuação da Parte 1 de 2:]

 

            1.6. Preparação do seminário. Esta etapa, posterior à pesquisa, consiste na escrita do seminário que será lido, ou na elaboração de uma aula que será apresentada. Num e noutro caso, pode ser que você tenha de fazer uso de instrumentos de apoio, como projeção de slides ou escrita no quadro. Mas slides e anotações são apenas ilustrações: o principal é o texto a ser lido no seminário ou a aula a ser por todos acompanhada. Nos cursos de Filosofia, é comum e útil preparar um texto a ser lido – dado o caráter dos nossos trabalhos, que nos levam sempre a produzir textos fechados, publicáveis, ainda que tenham sido objeto de debate e incontáveis revisões. O seminário que consiste apenas em anotações e não é registrado de nenhuma maneira (por uma gravação, por exemplo) tende a se perder, o que é muito prejudicial para a memória do próprio grupo em que se desenvolve o seminário. Assim, proponho desde logo que todo seminário que você venha a fazer seja apresentado na forma de um texto, cuja leitura não deve ultrapassar o tempo máximo disponível para a sua apresentação, descontado o tempo reservado para as questões ou o debate. Mesmo quando o seminário é em grupo, vale a pena – e talvez seja até melhor, pois garante maior consistência – apresentar um texto lido. Neste caso, porém, a preparação do texto pode se tornar muito mais demorada e problemática, pois as tarefas de leituras costumam ser divididas e a escrita do texto final, também. É preciso organizar com o máximo de antecedência essa rotina de reuniões e as etapas de elaboração do texto final; como se trata de um trabalho de grupo a ser organizado, é importante que se eleja um líder de grupo, não para falar sozinho, mas simplesmente para administrar essa agenda e o cumprimento das tarefas por todos. Uma outra regra para os grupos de seminaristas, no que respeita à leitura dos textos, é a seguinte: todos os integrantes do grupo devem ler todos os textos que devem ser lidos pelo grupo; de modo algum deve-se pensar em dividir em partes um texto ou conjunto de textos de maneira que cada um leia uma parte e não leia as demais (quase todos os seminaristas de grupo burlam esta recomendação, e o resultado é um grupo que detém uma visão inconsistente do tema do seminário). Sendo, enfim, um texto, não só pode como deve ele trazer o máximo de referências e notas que justifiquem tudo o que se diz nele. As notas normalmente não são lidas – salvo em caso de relevância extrema –, mas são muito importantes para a orientação dos leitores e debatedores do seminário, que preferencialmente já terão recebido o texto antes do dia da leitura (o que lhes permitirá estudar o mesmo assunto com antecedência, e elaborar melhores questões do que aquelas apresentadas no calor da discussão).

            1.7. Ensaio do seminário. A idéia de ensaio é válida principalmente para as apresentações em grupo, mas também é desejável para quem vá falar sozinho. O grupo de seminaristas, uma vez tendo finalizado a elaboração do texto, deve se reunir no mínimo uma vez, dias ou horas antes do seminário, e simular sua apresentação – de preferência, para um público de pessoas que não sejam apenas os próprios seminaristas. Isso permite revisar as questões do seminário, e mesmo o próprio texto. Permite colocar questões, pensar em respostas, que muito provavelmente surgirão no seminário. No caso de seminarista isolado, é recomendável que leia e estude o texto do seu seminário com antecedência, concentrando-se nesse mesmo conjunto de prováveis questões – a serem colocadas pelos debatedores ou por ele mesmo.

            1.8. Disponibilização do material de acompanhamento. Uma vez o texto finalizado verdadeiramente, é preciso disponibilizá-lo com razoável antecedência aos demais colegas que participarão do seminário. Isso é necessário porque receber o texto para a leitura apenas na própria hora do seminário é algo extremamente frustrante, visto que impede elaborar com mais tempo e tranqüilidade questões de maior relevância. É claro que devemos desenvolver essa habilidade de apresentar questões para um texto com cujo conteúdo nos deparamos pela primeira vez exatamente agora (é o que acontece quando assistimos a uma aula ou, principalmente, quando assistimos a uma comunicação, palestra ou conferência), mas o propósito dos seminários é garantir que todos os integrantes do grupo acompanhem a análise do texto, um trabalho que leva meses e no qual todos trocam de papéis – uma vez seminaristas, outras vezes debatedores. É importante mandar o texto por e-mail ou outro expediente até o 24h antes do seminário, para que todos já cheguem com o mesmo lido.

            2. Dia do seminário:

            2.1. Apresentação do seminário em si. Um seminário se divide numa parte expositiva – a da leitura do texto, ou da aula – e uma parte dedicada a questões dos presentes. A experiência mostra que é tempo mais que razoável o período de uma hora para que se apresente a parte expositiva. Em seguida, haveria meia-hora, uma hora, duas horas, dois dias – depende da agenda e do espírito do grupo – para a discussão e apresentação de questões. Um seminário é bem-sucedido quando sua parte expositiva é esclarecedora a respeito do assunto que analisa; já pode parecer maximamente esclarecedor na parte expositiva, mas a parte dedicada às questões sempre traz boas surpresas, e é por isso que é tão importante. Com certeza, um seminário para o qual se estudou maximamente e para o qual se elaborou uma boa versão escrita para a ocasião da leitura é um seminário que provocará uma grande reflexão e, justamente, uma positiva avaliação.

            2.2. Debate a partir do seminário. Há regras também para os debates. A principal é que todos os participantes devem acompanhar as reuniões dos seminários, devem conhecer os textos que já foram debatidos e principalmente este sobre o qual se está discutindo agora. Uma pessoa desavisada dos caminhos por onde vinha passando o grupo de estudos acaba sendo impertinente e prejudicial à qualidade das discussões. É por isso que é importante comparecer ativamente a todos os seminários, e não apenas àqueles em que se ocupa a posição de expositor. As questões também devem ser relevantes: não há nada mais irritante do que alguém que apresenta uma questão só para marcar presença. Questões devem ser suscitadas e apresentadas, mas o objetivo dos debatedores também é o esclarecimento do texto ou do assunto, e não a motivação da polêmica pela polêmica.

            3. Após o seminário:

            3.1. Revisão do seminário para desenvolvimento posterior. Passado o seminário – depois de tanto preparo, ele passa muito rápido –, temos enfim muitas questões novas além daquelas que havíamos proposto, mas também muitas respostas interessantes. O texto do seminário merece revisão, que inclua as questões apresentadas no debate e apresente novos caminhos para se continuar o estudo do mesmo tema sobre o qual já se iniciou um importante percurso. Dele poderá sair um artigo, uma comunicação, uma dissertação, talvez até um projeto de pesquisa. Mas, se simplesmente já ficar como um bom seminário, já merecerá constar do rol de atividades do pesquisador.

            3.2. Registro no currículo Lattes. É por isso que, a meu ver, o acadêmico que cumpriu estas etapas deve, sim, registrar no seu Currículo Lattes cada seminário que apresentou. Eu o faço e recomendo; coloque na seção “Apresentações de trabalho”, subitem “Seminário”.

            Seriam estas as regras básicas para qualquer seminário. É desejável segui-las, mas para isso a própria vida precisa de muita organização. Sai ganhando quem apresenta o seminário e sairão ganhando muito mais todos aqueles que quiserem aprender mais a respeito do tema que é trabalhado pelo seminarista.

            16:07:15



Escrito por Fernando Dias Andrade às 16:32:48
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Recomendações para um bom seminário [Parte 1 de 2]

23/03/2008 16:15:26

 

            Uma aluna, integrante do grupo de estudos de Filosofia do Direito que montei na Unifesp, pergunta-me sobre “qual é a forma que [julgo] ser mais adequada para a elaboração do seminário para o grupo de estudos.” Respondo-lhe:

 

23/03/2008 14:41:03

 

[...]

            Um bom seminário é uma boa aula. Considerando que todo seminário é dialógico (diferente de uma dissertação, que é sempre monológica), você tem que se preparar para apresentar publicamente com bastante clareza, relevância e esclarecimento algum assunto sobre o qual foi estudar – tudo dentro de um certo limite de tempo. Não há um modelo exato de seminário: já assisti tanto a seminários de grupos muito grandes – que mais pareciam um jogral –, quanto a seminários de uma pessoa só que se arrastavam por dias. Pensemos porém num perfil mediano, que contenha elementos que não podem faltar:

            1. Antes do seminário:

            1.1. Objeto do seminário. A escolha do assunto do seminário pressupõe um comprometimento acadêmico: o de considerar que se é capaz de estudar aquele assunto e falar em público a respeito dele. Nem sempre estamos preparados ou com tempo suficiente de nos preparar para estudar dado assunto que será objeto de seminário marcado para certa data. Mas uma vez assumido o desafio, é preciso organizar esse seminário o quanto antes. É preciso estudar os textos que já foram indicados para estudo daquele assunto, será preciso acrescentar informações adicionais – nas quais pensaremos uma vez que já tenhamos iniciado o estudo dos textos originalmente indicados. Quanto mais material lido para o conhecimento do assunto, melhor. Mas cada texto lido deve ser efetivamente ponderado e refletido: não é o caso de ler dez textos sem ponderar nenhum, sendo melhor ler dois que tenham sido efetivamente refletidos – pois serão analisados no seminário. Uma vez definido o objeto e os textos a partir dos quais ele deverá ser estudado, parte-se para a elaboração do conteúdo do seminário.

            1.2. Definição das pessoas envolvidas. O seminário pode ser individual ou em grupo. Não necessariamente o seminário individual é melhor do que o seminário em grupo, porque ambos têm vantagens e desvantagens. A vantagem do seminário individual sobre o seminário em grupo é permitir ao seminarista abordar por completo o objeto, sem precisar contar com o (talvez mau) desempenho dos colegas. A vantagem do seminário em grupo sobre o individual consiste na exigência de uma discussão constante entre os integrantes a respeito do tema, o que pode trazer questões de grande relevância, nas quais o seminarista isolado talvez não viesse a pensar. As desvantagens são equivalentes: o seminário individual pode ser cansativo demais, e o seminário em grupo pode ser um espetáculo de inconsistência. De qualquer modo, se houver mais de um seminarista, trata-se de distribuir tarefas e principalmente agendar os encontros anteriores ao seminário, para discutir o texto lido, para revisar as partes já elaboradas do seminário e, se possível, ensaiar o seminário. Se for seminário individual, deve o seminarista compensar o maior tempo disponível para pensar sozinho o seminário com uma atenção redobrada, pois não terá ninguém ao seu lado para responder às questões. Mas mais importante do que responder às questões é, talvez, preparar o conteúdo do próprio seminário: as questões deverão ser conseqüência dele, e não quaisquer questões desconectadas com o tema ou com a interpretação passada no seminário.

            1.3. Estudo antecipado do assunto que é objeto do seminário. Parece evidente, mas é um passo que deve ser levado muito a sério e com o máximo de antecedência. Normalmente há textos indicados com antecedência para o seminário, inclusive porque o mais das vezes o seminário se constitui numa análise de texto. É importante, pois, ler esse texto e todos aqueles que levam a ele. Se, por exemplo, o seminário é sobre o capítulo 5 de um livro que trata em seqüência de algum assunto, é imprescindível ler todos os capítulos anteriores a esse capítulo 5 antes de lê-lo. A leitura do capítulo 5, porém, exigirá mais trabalho, porque se trata de desvendar a estrutura do texto, o tema do texto, as questões apresentadas por ele como relevantes e as respostas que o próprio autor dá. Em síntese, a análise do texto é nada mais do que isto (é o que faço, por exemplo, no meu despretensioso seminário sobre O conflito das faculdades, que coloquei no meu site: http://grus.sites.uol.com.br/conflitofac.pdf). Quanto maior o texto, mais trabalho dá para ser estudado, é claro. Ideal é que um seminário nunca seja sobre um livro inteiro – ainda que breve –, mas sobre um capítulo ou um artigo, de maneira que seja possível analisá-lo mais detidamente no tempo disponível. Para analisar um livro seria preciso, talvez, um semestre. O estudo do texto que é objeto do seminário pressupõe, ainda, investigar outros textos que tratem do mesmo assunto, seja porque lhe sirvam de base, seja porque respondem a ele, seja porque o assunto é o mesmo, seja porque poderia se propor alguma aproximação entre ambos. Nos seminários sobre os textos de Fassò, por exemplo, seria muito interessante comparar o que ele diz com o que é dito por outros historiadores da Filosofia, além de, é claro, ir atrás dos próprios textos dos filósofos que dele são objeto.

            1.4. Reflexão sobre o assunto. Uma vez conhecidas a estrutura e as questões do texto estudado, é importante refletir sobre elas. De fato, conhecer a estrutura é só a obrigação inicial, para que se saiba onde se está pisando. Uma vez naquele terreno, é preciso tirar o máximo de lá. Do passo anterior você sairá com um mapa do texto, com a listagem dos problemas e conclusões que ele traz. A partir daí, aonde é possível ir? As possibilidades são infindáveis, e é especialmente aqui que cada seminarista mostra o seu principal valor. Aqui você deve pensar na importância filosófica do texto, no seu poder de suscitar novas questões, na sua viabilidade e atualidade enquanto texto que ainda mereça ser lido hoje. Aqui, também, você pensa os temas de interesse não apenas do autor, mas os seus próprios. Analisando um texto sobre o amor e o ódio ao príncipe segundo Maquiavel, por exemplo, você pode, ao lado de expor o raciocínio maquiaveliano, desenvolver uma reflexão sobre os afetos em Maquiavel, sobre a racionalidade ou não da maneira como Maquiavel tematiza os afetos, sobre como Maquiavel repercute ou não as teorias afetivas da renascença, sobre como ele pode servir de referência para pensadores contemporâneos ou futuros que trabalhem no mesmo sentido – como Hobbes, como Espinosa, como Rousseau. É uma reflexão típica do historiador de Filosofia, ainda. Não se trata, talvez, de sair do autor estudado e perder-se em reflexões desconectadas do tema do seminário – pois o resultado não mais se comunicaria com o assunto estudado, e portanto nada mais esclareceria sobre ele –, mas é importante incluir questões relevantes para o esclarecimento ou desenvolvimento do tema que o próprio autor talvez não tenha explicitado ou não tenha notado. Esta etapa também encerra a pesquisa prévia para o seminário; é preciso encerrar o trabalho de pesquisa em algum momento, ou nunca se começa a escrever o seminário em seu formato apresentável.

            1.5. Concepção do seminário. Conhecida a estrutura do texto e iniciada uma reflexão sobre ele, é preciso pôr tudo numa espécie de roteiro. Você não apenas tem um prazo para elaborar seu seminário, como terá um prazo para falar. Independente de ser o seminário lido ou não, a fala apresentada deve ser clara na linguagem, focada no objeto, esclarecedora da estrutura do texto analisado e, principalmente, instigadora à discussão e à reflexão. E tudo isso começa com a elaboração de um roteiro de seminário, equivalente a um plano de aula. Você deve elencar os temas e questões que deverão ser tratados. Digamos, por exemplo, que o assunto seja o Prefácio do livro de Fassò (texto que passei a todos os integrantes de nosso grupo, mas que não será objeto de seminário). Um roteiro inicial poderia ser: Identificação do texto; Apresentação da divisão do texto, de seus momentos argumentativos; O projeto de uma História da filosofia do direito; Distinção entre Filosofia do direito e Filosofia, segundo Fassò; Distinção entre História da Filosofia do direito e História da Filosofia, segundo Fassò; Condições para a elaboração de uma História da Filosofia do direito; Perspectivas metodológicas do projeto de Fassò; Divisão da História da Filosofia do direito segundo Fassò; Relação de Fassò e outros filósofos do direito; Relação da História da Filosofia do direito de Fassò e outras obras relevantes, do período ou anteriores; Importância da obra de Fassò após quarenta anos de sua aparição, etc. São temas que são dados pela estrutura do texto, pelo conteúdo do texto e pelas reflexões a respeito do conteúdo do texto. É o temário mínimo, diria eu, que poderia ser apresentado a respeito do Prefácio da sua História da Filosofia do direito. Uma vez preparado esse roteiro, é o caso de elaborar discursivamente o seminário.

 

[Continua na parte 2 de 2...]



Escrito por Fernando Dias Andrade às 16:29:53
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CONTRA O TROTE VIOLENTO

21/02/2008 14:47:06

 

            Está em todos os jornais um caso de trote violento ocorrido ontem, primeiro dia de aula dos calouros do campus Memorial da Universidade Nove de Julho (Uninove), na Barra Funda, cidade de São Paulo. Já pela manhã, como era de se esperar, foram os calouros recepcionados pelos veteranos por meio do trote, brincadeira coletiva que na sua forma mais suave já é uma seqüência de práticas criminosas. Algumas já são consideradas costumeiras, como pintar os calouros, obrigá-los a pedir dinheiro no semáforo, cortar o cabelo dos rapazes – já são todas, porém, práticas violentas e criminosas. Além destas, inovações mais violentas têm se tornando a regra, como embebedar os calouros quase até o coma alcoólico, o que é violento não apenas pelo mal imediatamente causado à saúde (embora os universitários não estejam nem aí pra isso), como é violento principalmente a partir do momento em que o calouro não quer ser embebedado (aconteceu na PUC-SP semana passada). O que dizer, agora, da pura agressão física? Ela sempre costuma ocorrer, mas ultimamente tem ocorrido mais.

            No caso de ontem, um calouro do curso de Comunicação Social do campus Memorial da Uninove assistia aula quando exerceu um direito seu – o de ir e vir, no intervalo das aulas – e foi avistado por veteranos que aplicavam o trote. Notou que, enquanto permanecesse fora da sala de aula, ficaria à mercê do ataque dos veteranos e, como não queria se submeter ao trote nem na sua forma mais leve – outro direito seu –, retornou à sala. Imaginava que lá estaria a salvo, pois foi informado por colegas de que os veteranos não atacavam os calouros nas salas de aula. Estava errado. Os veteranos que o haviam avistado seguiram-no até a sala de aula e, lá chegados, exigiram que ele se entregasse imediatamente ao trote (no mínimo, à pintura do rosto e corpo). Recusou-se – outro direito seu –, alegando que teria de ir ao trabalho em seguida. Foi o suficiente para acender o ânimo criminoso dos veteranos. O trote é originalmente uma brincadeira – de mau gosto, mas uma brincadeira –, até o momento em que se transforma num ataque violento à sua vítima. Aí, de brincadeira o trote se torna uma prática criminosa, e o veterano que obriga o calouro a participar do trote sabe que está praticando um crime. Que houve ontem com o calouro da Uninove? Imediatamente após declarar que não participaria do trote, foi atacado pelos veteranos – ao menos quatro – com socos e chutes durante alguns minutos. Foi o suficiente para que ficasse com o corpo cheio de escoriações e cortes, e o espírito tomado pelo medo e estupor. Os veteranos só pararam quando perceberam que alguns seguranças da Uninove se aproximavam. Sangrando e com muitas dores, o calouro, que já não recebera segurança que garantisse que não fosse submetido ao trote, não recebeu atendimento médico no local – mesmo havendo um serviço de atendimento emergencial no térreo do campus –, não foi atendido pela administração da universidade nem foi auxiliado por ela a se dirigir à delegacia ou ao hospital.

            O calouro vitimado ontem era uma pessoa de bem e um cidadão consciente. Pessoa de bem, estava presente ao seu primeiro dia de aula na Uninove para iniciar um novo passo em sua vida pessoal e profissional. Cidadão consciente, não queria participar do trote para não ser prejudicado em seu trabalho e, uma vez tendo sido vítima tanto de um ataque criminoso por parte dos veteranos quanto de uma omissão de socorro por parte da Uninove, foi à delegacia denunciar o crime – que não deve ficar impune – e, só depois, foi atrás de atendimento médico nos serviços de saúde. Quanto aos veteranos, somente um deles foi identificado (Rafael Rodrigues) e ontem mesmo recebeu da Uninove apenas uma suspensão de quinze dias – que não duvido que ele vá gastar aplicando mais trotes violentos nos calouros. À imprensa, que foi felizmente acionada pelos calouros e desde ontem à tarde esteve presente às portas da Uninove – sem conseguir ser atendida devidamente pela administração da instituição –, chegou essa notícia da suspensão de um dos veteranos agressores e nada mais. Nenhuma explicação quanto à falta de segurança no interior do campus. Nenhuma explicação quanto à falta de socorro médico para este e outros alunos agredidos (sim, outros alunos foram agredidos). Nenhuma explicação, enfim, a respeito da suficiência ou insuficiência dessa ridícula penalidade de suspensão.

            Desse caso triste nós temos, a meu ver, tanto uma evidenciação do descaso das instituições de ensino superior quanto à segurança dos seus próprios alunos (ao contrário, há na Uninove Memorial preocupação evidente quanto à segurança do próprio campus, já que a circulação é controlada por catracas eletrônicas), quanto principalmente do nível de gosto pela violência que é hoje a marca da maioria dos jovens em idade universitária, sejam eles universitários ou não. O trote surgiu como uma brincadeira. Tornou-se uma forma privilegiada de violência física – privilegiada porque nem os agressores nem a instituição são responsabilizados por ela, e violenta porque criminosa. Ontem, ao dirigir-se à delegacia para prestar queixa, o calouro mostrou ser muito maior do que seus colegas veteranos e a própria Uninove: mostrou que, a despeito da violência ou especialmente porque se é vítima dela, é preciso fazer cumprir a lei. A Uninove, ao não tomar medidas preventivas sérias contra a prática do trote violento, mostra-se negligente e merece ser responsabilizada. Os veteranos, ao insistirem na prática do trote, mostram-se simples criminosos. É triste que um estudante universitário seja um criminoso. Apesar disso, o estudante universitário não deve ser tratado com um criminoso privilegiado, simplesmente porque ninguém deve ser tratado um criminoso privilegiado. A instituição de ensino superior que não previne nem pune devidamente a prática do trote – e a punição administrativa minimamente adequada é a expulsão, não a suspensão – não apenas se mostra negligente diante da violência que toma conta do seu interior como se mostra conivente com sua intensificação. A Uninove é uma instituição particular. Instituições públicas de ensino superior são usualmente mais rigorosas do que instituições privadas na punição administrativa dos criminosos que ali estão. Será que o desleixo da Uninove diante da prática do trote violento – manifestado quando não expulsa o autor do trote – não se deve ao desinteresse em perder mais um cliente, o qual pelo jeito paga as mensalidades não para se dedicar aos estudos, mas para se sentir freqüentando um clube em que a violência é publicamente estimulada?

            Ao calouro agredido cabe acionar tanto os seus agressores quanto a universidade. Quem cuidará da parte criminal será o Ministério Público (espera-se), mas ele já tem desde logo o poder de acionar tanto os veteranos pela agressão quanto a universidade por negligência – tudo na ótica da responsabilidade civil. O trote violento tem se tornado marca dos nossos universitários e das nossas instituições, assim como a violência de uma maneira geral tem se tornado marca da nossa sociedade. Está na hora de reconhecermos o trote violento como um tipo específico de crime – da mesma maneira que o assédio sexual passou não faz muito tempo a ser tipificado como crime –, assim como é fundamental que se discuta amplamente a responsabilidade civil das instituições de ensino superior nos casos de trote violento.

            15:51:44



Escrito por Fernando Dias Andrade às 14:55:29
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PLANO DE ENSINO (1º SEMESTRE DE 2008)

17/02/2008 07:18:11

 

            Como sempre, disponibilizo no meu site o plano de ensino do semestre corrente. Novamente lecionarei aos calouros, desta feita dentro da unidade curricular Teoria do conhecimento I (uma introdução às epistemologias de Descartes e Espinosa). O plano de ensino se acha no link http://grus.sites.uol.com.br/plano20081.pdf

            Deixo à disposição também os planos dos semestres anteriores: no link http://grus.sites.uol.com.br/plano20071.pdf está o plano do curso de leitura do Tratado político de Espinosa (dentro da unidade curricular Leitura e Interpretação de Textos Clássicos I, 1º semestre de 2007); e no link http://grus.sites.uol.com.br/plano20072.pdf está o plano do curso sobre a parte I da Ética de Espinosa (com o qual inaugurei na Unifesp a unidade curricular História da Filosofia Moderna I, 2º semestre de 2007).

            07:23:05



Escrito por Fernando Dias Andrade às 06:25:38
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SOBRE A IMPORTÂNCIA DO DIREITO ROMANO

16/02/2008 14:30:02

 

            Há mais de uma semana, na lista de discussão de direito civil de que participo, o colega Ezequiel Morais, de Goiânia, quis saber nossa posição sobre o seguinte trecho de recente obra de José Reinaldo Lima Lopes:

            “Resolvi começar pelo direito medieval porque o direito do mundo antigo, especialmente o romano, embora possa ser contado entre os artefatos intelectuais da 'civilização ocidental' pertence plenamente a um mundo extinto. O direito romano do qual falamos, e com o qual operaram os juristas ocidentais, não é o direito dos romanos históricos, mas aquele revivido pela Idade Média e depois utilizado para sistematizar e codificar o direito moderno e contemporâneo. Lembrando a frase de Jhering, a 'terceira vez' em que Roma deu leis ao mundo já não era a vez ou a voz da Roma clássica; tratava-se antes de um eco, não de uma voz própria. Já quanto ao direito medieval, também nascido em uma civilização para nós extinta, reconheço sua continuidade em vários aspectos" (José Reinaldo de Lima Lopes. Curso de História do Direito. 2006. Método, p. 22).

            Alguns colegas prontamente (Lucas Barroso, Tonico Limongi, Romualdo Baptista) lhe responderam. Eu só o fiz hoje:

 

16/02/2008 10:36:56

 

Caro Ezequiel, caros colegas,

 

            Agora sim encontro tempo (ou quase isto) para escrever.

            Sobre o que diz o Prof José Reinaldo no trecho citado pelo Ezequiel, é preciso em primeiro lugar notar o que ele está querendo dizer – nada mais do que efetivamente ele já diz. José Reinaldo escreve uma história do Direito. Com que intenções? Coerente com sua postura de intelectual informado de várias metodologias e, no caso da História, sabedor de que fazer história não é construir uma cronologia, mas sim investigar as fontes efetivas do objeto atual, José Reinaldo Lima Lopes tem, como resposta à questão sobre quais os fundamentos históricos do direito atual, a resposta de que há uma ruptura entre o mundo jurídico pré-medieval e as origens do mundo jurídico contemporâneo. É uma tese interessantíssima, porque exige que vejamos o Direito não numa perspectiva comparativa (que busca semelhanças entre a aparência do direito atual e a aparência do direito romano, por exemplo – o que todo mundo sempre fez, o típico estudo de direito romano a que fomos acostumados), mas numa perspectiva estrutural (que reconhece as origens reais da forma do direito atual – exigência descoberta pela historiografia praticada pelos historiadores tanto das instituições quanto das mentalidades). Seja, no caso em discussão, o direito atual. Tem ele origem no direito romano? José Reinaldo Lima Lopes demonstra que NÃO. Colegas, calma!!!!!!! Não parem a leitura por aqui. É assim mesmo, é uma tese muito séria e eu a explico.

            Todos temos ciência da história e dos conteúdos do direito romano. Coincidindo com nosso gosto crônico pela guerra entre direito privado e direito público, somos acostumados a uma separação entre direito romano privado (normalmente o mais conhecido, e muitas vezes o único ensinado nos cursos de graduação) e direito romano público (que eu mesmo só vim a conhecer a partir das aulas do Prof Rogério Lauria Tucci). As obras jurídicas que explicam esse universo do direito romano têm um curioso formato positivista, explicável também pelo fato de terem seu modelo instituído em meados do século 19. Ou seja, apresentam o direito romano como um conjunto de normas, propõem uma sistematização científica desse conjunto (coisa que os próprios romanos não haviam feito) e explicam cada instituto do direito romano fazendo sempre as remissões à norma romana pertinente. Lemos esses manuais de direito romano e ficamos maravilhados com a profunda semelhança entre ele e nosso Direito Civil. Os mesmos institutos e as mesmas divisões entre direitos da personalidade, obrigações, coisas, família, sucessões! E quanto mais esmiuçamos os detalhes de cada instituto, mais detalhes encontramos. Como explicar isso senão por uma continuidade do direito romano no direito civil atual, feitas as devidas e naturais alterações? Mas o fato seria que o nosso direito é uma versão atual de uma concepção romana do direito, dos direitos e principalmente da sistematização do direito. Na verdade, é assim só na aparência. Nosso direito não é uma continuidade do direito romano antigo (como fomos acostumados a acreditar), mas sim uma continuidade do direito romano medieval tardio. O que é esse direito romano medieval tardio, se a Roma ocidental não existe mais desde o final do mundo antigo e a Roma bizantina do mundo medieval é um ambiente culturalmente miscigenado e mais oriental do que europeu (ou seja: não existe Roma romana no mundo medieval)? Não um direito romano normativo, mas uma formulação científica e filosófica dos conteúdos do antigo direito romano e de algo do direito canônico que é elaborada no final da Idade Média e, principalmente, no início do Renascimento por uma série de juristas italianos centralizados na primeira universidade do mundo, a Universidade de Bolonha. O direito romano original, aquele exposto nas várias leis e nunca explicado de forma doutrinária pelos juristas romanos (não temos, deles, obras teóricas sobre as próprias leis – um retrocesso lamentável diante dos juristas gregos, que tanto legislavam quanto escreviam tratados sobre suas leis e as leis dos outros povos), não era um sistema. O direito romano como sistema não é uma reformulação, mas sim uma invenção do final da Idade Média, uma construção intelectual de juristas como Acúrsio (séc. 13), Bártolo e Baldo (séc. 14). Isso não é explicado com a devida importância pelos nossos manuais de direito romano. Ao contrário, estes manuais costumam indicar a existência de uma escola conhecida como “Escola dos Glosadores”, incluindo tais juristas nela como meros comentadores do direito romano. Na verdade, estes comentadores são os inventores do direito romano tal como o conhecemos hoje. E, desde então, sempre que os juristas ou os filósofos do direito vierem a propor e explicar o direito como sistema (idéia que resulta das noções de ciência apresentadas a partir da filosofia medieval), estarão reformulando não o direito romano antigo, mas o projeto científico dos juristas renascentistas (é um caso que vale tanto para Domat no século 17 quanto para Jhering no século 19). É por isso que o Prof José Reinaldo começa do mundo medieval: é o mundo medieval que, já apontando para o Renascimento, cria a idéia de sistematização do direito que tem como resultado os sistemas jurídicos europeus, e o que sabemos do direito romano depende integralmente da obra desses “glosadores”. Se os glosadores não tivessem existido, é praticamente certo que não teríamos nada do direito romano em qualquer sistema jurídico atual, porque a efetividade sistêmica dos direitos costumeiros é impressionante, plenamente suficiente para a solução de todos os tipos de conflito e portanto para a produção de um sistema jurídico completo. Mas isto é uma hipótese. O fato, independente da hipótese, é que sempre que consideramos que nosso direito apresenta uma continuidade do direito romano antigo e não da invenção científica do direito medieval-renascentista, confirmamos que nossa visão é técnica e não científica. O que José Reinaldo Lima Lopes busca é mostrar ao jurista que se interessa por história do direito que deve ver essa história com olhos de historiador: e os historiadores do “direito romano atual” (eis o título da obra de Jhering, reproduzindo uma noção comum entre os refinadíssimos juristas alemães do início do século 19) sabem que se trata de investigar a origem da idéia de um sistema de direito romano. Isso é invenção dos chamados “glosadores”.

            É isso, apenas, que José Reinaldo busca evidenciar, não sem nos chocar. Em suma, uma leitura só por meio da comparação externa dos institutos do direito romano antigo e os institutos do direito atual é muito pobre e nada explica sobre a história do direito (nem do direito antigo, nem do direito atual). É essa investigação das origens e dos fundamentos de uma história das mentalidades que o historiador do direito deve realizar se pretende que seu texto seja científico. E é um trabalho que está apenas no início.

            Continuando, houve comentários dos colegas ao e-mail do Ezequiel. Aproveito para comentá-los:

 

            Sobre as observações do Lucas: Concordo com tudo o que você disse, Lucas, menos com certas afirmações. [...] Tenho ressalvas quanto à sua afirmação de que “O Prof. José Reinaldo pelo visto reconhece a continuidade do direito medieval até hoje porque o liberalismo infundiu no absolutismo a criação da economia de mercado”, porque, na verdade, ele funda a base da história do direito no ambiente medieval em função de estarem lá, e não antes, as fundações intelectuais do projeto científico de sistematização do direito ocidental (objeto de seu livro). Mas que não é mera coincidência estarmos, na Renascença, batendo às portas da invenção do capitalismo e haver um diálogo direto entre as fundações do liberalismo jurídico e as fundações do liberalismo econômico, isso com certeza.

 

            Sobre as observações do Limongi, que recorda muito felizmente a obra anterior de José Reinaldo, O direito na história, e nota que ela começa no mundo antigo. Na verdade, Limongi, o propósito daquela obra é outro: o de corresponder a uma visão cronológica, daí o título. Uma coisa é apresentar a história do direito (o que implica uma história das mentalidades e é o proposto por ele no Curso de história do direito, e em que ele não pode começar pelo mundo antigo porque as fundações intelectuais do nosso direito sistematizado não estão lá), outra o direito na história (ou seja, concedendo que por “direito” se entenda o direito positivo e por “história” entendamos a totalidade do tempo, explicar como se apresenta em cada época ou lugar – escolhidos um critério de maior familiaridade ao acadêmico – cada sistema jurídico; os resultados são bem mais pobres, diria eu, do que os que se alcançam a partir do outro percurso). É um cuidado que todos devemos tomar: quando incluímos exemplos das normas antigas ou simplesmente anteriores, o que pretendemos apresentar como lição histórica? A simples comparação normalmente nada diz, e é por isso que nos manuais os capítulos iniciais que contam a história do instituto são tão chatos para o leitor médio.

            [...]

 

            Por enquanto é isso. Abraço a todos,

            Fernando



Escrito por Fernando Dias Andrade às 14:42:18
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I JORNADA UNIFESP DE FILOSOFIA MODERNA

Data: Sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Local: Campus Guarulhos da UNIFESP: Estrada do Caminho Velho 333, Bairro Pimentas, Guarulhos, SP, Tel (11) 6496-8564

Como chegar: http://vestibular.unifesp.br/mapas/info_guarulhos.htm

Programa:

14h: Conferência de abertura: Profª Drª Olgária Chain Feres Matos (Unifesp): “O drama barroco alemão: More geometrico e estado de exceção”

15h: Mesa-redonda (Profs Drs Homero Silveira Santiago (USP) – “Bento XVI e a (in)tolerância” – e Fernando Dias Andrade (Unifesp) – “Justiça e democracia” [texto disponível em http://grus.sites.uol.com.br/jd.pdf])

16h-16h30: Intervalo

16h30: Mesa-redonda (Profs Drs Eduardo Baioni (UFSCar) – “O problema da substancialidade em Descartes” – e Luciana Zaterka (PUC) – “A questão da substância na filosofia experimental de Locke”)

17h30: Mesa-redonda (Profs Drs Tessa Moura Lacerda (USP) – “Sobre a expressão em Leibniz” – e Luis Cesar Oliva (USP) – “Leibniz: da noção completa à mônada”)

18h30-19h: Intervalo

19h: Conferência Profª Drª Marilena de Souza Chauí (USP): “Medo, esperança, guerra e paz em Espinosa”

Inscrições gratuitas pela Internet até 7/11/2007 no endereço: http://dpdphp.epm.br/acad/siex/index.htm



Escrito por Fernando Dias Andrade às 17:44:03
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SITE DA UNIFESP GUARULHOS

24/3/2007 10:30:11

 

Caros alunos,

 

            Está no ar oficialmente o site da Unifesp Guarulhos:

            http://humanas.unifesp.br

            Ainda é a versão inicial. Dêem uma olhada e apresentem sugestões a respeito de como ele pode melhorar. Eu faço parte da Comissão de Informática, e posso receber as sugestões.

            10:32:31



Escrito por Fernando Dias Andrade às 09:33:29
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DOIS AVISOS IMPORTANTES

20/3/2007 01:14:14

 

            Caros alunos,

            No final da aula de ontem vários alunos informaram seus e-mails para que pudessem se comunicar entre si e organizar os seminários do semestre. A nova distribuição dos seminários e a listagem dos e-mails está no link

http://grus.sites.uol.com.br/alunos.htm

Os demais alunos que quiserem divulgar seus e-mails aqui, escrevam-me [grus@uol.com.br].

            01:27:23



Escrito por Fernando Dias Andrade às 00:27:43
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SUGESTÃO DE LEITURA: MARILENA CHAUÍ, CONVITE À FILOSOFIA

14/3/2007 16:41:14

 

            Como eu disse, toda quarta-feira devo passar por aqui a fim de deixar uma sugestão de leitura. Por sugestão de leitura, não quero dizer os textos que sejam solicitados aos meus alunos no meu curso ministrado às tardes de segunda, mas antes textos que penso que deveriam ser de interesse de todo estudante de Filosofia ou, em certos casos, de todo estudante da Unifesp Guarulhos.

            É o caso deste primeiro livro que aqui indico: Marilena Chauí, Convite à Filosofia, São Paulo, Ática, 13ª edição [“capa branca”], ISBN 850808935X.

            Este livro é o melhor manual de filosofia em língua portuguesa. Sua primeira edição se deu em meados da década de 1990 [“capa vermelha”] e logo se revelou a melhor introdução à filosofia que qualquer leitor pode ter em mãos, pondo em segundo ou terceiro plano todo o enorme arsenal de introduções à filosofia de teor comercial ou mesmo amador que até então preenchiam as livrarias. Dez anos e algumas revisões depois, a posição desse livro como a melhor iniciação à filosofia em língua portuguesa só se confirma.

            Um dos motivos para tamanha importância se deve ao fato de ser escrito pela filósofa mais influente do Brasil, Marilena Chauí. Professora de filosofia na USP há quatro décadas e certamente a intelectual mais influente nos rumos da filosofia neste país, Marilena Chauí é ainda uma das nossas melhores escritoras. Ninguém domina como ela a arte da escrita filosófica – do ensaio à comunicação, da tese ao artigo, da grande obra ao manual introdutório. Não por acaso, quando se dispôs a escrever um manual de introdução à filosofia para os estudantes do ensino médio – este Convite à Filosofia – o resultado é não apenas um texto que devidamente prepara os alunos para o acesso ao mundo das humanidades como – surpresa maior – se mostra insuperável como introdução à filosofia até mesmo para os estudantes universitários em qualquer área de estudo. Desde que foi lançado, Convite à Filosofia é o melhor texto para se conhecer o que a filosofia é, o que estuda, em que se desdobra, a que leva – seja na vida acadêmica, seja na vida comum.

            Há três versões editoriais desta obra, uma de capa vermelha (a original), outra de capa verde (versão resumida da versão original) e outra de capa branca. Deve-se ler a de capa branca, que é a mais completa e a que traz as últimas revisões feitas pela autora.

            Não por acaso, sugeri a todos os meus alunos do curso das segundas-feiras a leitura deste livro, antes mesmo que se pusessem a ler, por obrigação, os textos da nossa bibliografia primária e secundária que respeitam ao nosso curso. E por que Convite à Filosofia? Porque, como o próprio livro e a própria vida mostram, não se pode forçar ninguém a filosofar: pode-se apenas mostrar o caminho, por meio de um convite ao esforço da reflexão.

            16:56:52



Escrito por Fernando Dias Andrade às 15:58:55
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QUADRO SEMANAL DE AULAS (1º SEMESTRE DE 2007)

9/3/2007 20:52:15

 

            Foi definido o quadro semanal de aulas do 1º semestre para os quatro cursos da Unifesp Guarulhos. Pus neste link:

            http://grus.sites.uol.com.br/quadroaulas.htm

            Reparem que as segundas-feiras serão o “dia da Filosofia”. É neste dia que todos os alunos dos quatro cursos assistirão às aulas de Leitura e Interpretação de Textos Clássicos I.

            Nosso trabalho começa nesta próxima segunda-feira, numa sala de aula que não poderia ter melhor número: 17.

            20:54:45



Escrito por Fernando Dias Andrade às 19:55:04
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ESPINOSA, VIDA E OBRA

6/3/2007 10:56:51

 

            A revista Discutindo Filosofia (voltada para público do ensino médio, e por isso mesmo interessante para aqueles que pensam em lecionar lá um dia) nº 8, a ir às bancas na segunda quinzena de maio de 2007, será dedicada à filosofia de Baruch Espinosa (1632-1677) – que é o filósofo cujo Tratado político apresentarei em meu curso deste semestre.

            Para aquele número da revista eu escrevi um brevíssimo artigo resumindo vida e obra do filósofo. Sairá editado, como sempre. Mas o texto original eu publico em meu site. O link é http://grus.sites.uol.com.br/evo.pdf

            11:00:29



Escrito por Fernando Dias Andrade às 10:01:35
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PLANO DE ENSINO

5/3/2007 08:22:15

 

            Acabo de disponibilizar em meu site o plano de ensino do meu curso deste semestre (sobre o Tratado político de Espinosa), dentro da disciplina (ou melhor, unidade curricular) Leitura e Interpretação de Textos Clássicos I.

            O link é

            http://grus.sites.uol.com.br/plano.htm

            5/3/2007 08:23:46



Escrito por Fernando Dias Andrade às 07:24:12
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PRIMEIRO DOS PRIMEIROS DIAS

5/3/2007 00:17:19

 

            E já é dia 5, o primeiro dos primeiros dias de aula no campus Guarulhos.

            É também a primeira semana de recepção dos calouros (de maneira que aula mesmo, só semana que vem). Hoje haverá um cerimonial de apresentação do campus, dos cursos, da estrutura da universidade. E entre terça e sexta haverá, dia a dia, a apresentação de cada um dos quatro cursos do campus, começando com o de Filosofia. Amanhã (terça), pois, nós professores do curso de Filosofia estaremos presentes para falar não apenas do curso como um todo e do que espera cada um dos alunos em suas futuras carreiras, mas em especial para explicar o que vem por aí já na nossa atividade mais imediata: a disciplina que será efetivamente ministrada por nós a partir de agora.

            Este semestre serei um dos professores responsáveis pela disciplina (ou, como se diz na Unifesp, “unidade curricular”) Leitura e Interpretação de Textos Clássicos. O tema específico do meu curso será uma leitura crítica do Tratado político de Espinosa, e hoje, em minha primeira ida ao campus em dia letivo, espero poder saciar minha curiosidade quanto às condições materiais de nosso trabalho no campus. Porque, enquanto a nossa biblioteca está em formação, medidas alternativas serão fundamentais para que os alunos tenham devido acesso à própria bibliografia.

            Tudo, aliás, está em formação ou em construção na Unifesp Guarulhos – inclusive o site oficial do campus, que ainda levará algumas semanas para ir ao ar com todas aquelas informações imprescindíveis à vida diária dos alunos, professores e a comunidade que se interessa pelas humanidades. A todos nós, um bom trabalho desde o início, porque o desafio é grande e inspirador.

            00:28:33



Escrito por Fernando Dias Andrade às 23:30:08
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SUGESTÕES DE LEITURA

28/2/2007 20:01:22

 

            Provavelmente nenhum curso superior exige tanta leitura quanto o de filosofia. É claro que não há curso superior que não seja pautado também por indicações de leituras intensas e pesquisas bibliográficas constantes, mas no caso do curso de filosofia, sendo a leitura a própria matéria-prima do curso, só temos por que amplificar essa entrega aos textos. O mesmo pode ser dito, no caso do conjunto de cursos da Unifesp Guarulhos, quanto a qualquer curso que se ache incluído num projeto de integração das humanidades; mas é uma verdade específica do curso de filosofia.

            Não há padrão, é claro, para um número de páginas ou textos a serem percorridos a cada semana. O que haverá é a constante consciência da necessidade de sempre estar lendo, como se cada minuto sem leitura ou sem reflexão sobre a leitura fosse um minuto desperdiçado no tempo. E porque esse tempo para a leitura pede um aproveitamento efetivo, trata-se não de ler mais, mas de ler melhor, ou antes de ler bem. A boa leitura é a única que se aproveita. E ela é uma leitura que se faz com método para que se descubram as sutilezas do texto; e com prazer para que o ato de ler não se torne um martírio.

            O próprio curso de filosofia é um curso de leitura, em certa medida. Um dos seus horizontes é a apresentação da história da filosofia e a discussão das maneiras de como abordá-la, mas um dos modos de operar essa apresentação da história da filosofia é a pura e simples leitura metódica dos clássicos (assunto ilustrado na prática de uma das unidades curriculares do primeiro semestre dos cursos na Unifesp Guarulhos: Leitura e Interpretação de Textos Clássicos). E, ao lado destes textos que compõem o centro das atenções de cada investigação nos cursos de filosofia, há a apresentação da fortuna crítica, ou seja, os textos de comentadores e estudiosos daqueles mesmos clássicos, que são referência obrigatória ou pertinente em função das questões suscitadas no desenvolvimento dos cursos. Só essa leitura metódica dos textos clássicos e a leitura da bibliografia secundária já seria suficiente para preencher todas as horas de estudo que se podem esperar do estudante.

            Mas além das leituras solicitadas em razão da rotina de cada curso é fundamental enriquecer a própria pesquisa com a busca de outros caminhos, outras obras que tanto podem servir de apoio aos estudos de filosofia como podem simplesmente revelar questões que deverão um dia ter sido reconhecidas pelo estudante de filosofia. Noutras palavras, é interesse ter contato com textos que apresentam o universo da filosofia – e também o da filosofia no Brasil – a fim de saber onde se está pisando.

            Pensando um pouco nisso devo aproveitar este espaço para apresentar, quem sabe toda quarta-feira, algumas indicações de leitura. Indico-as em especial aos meus alunos de filosofia, mas servem como indicação a quem quer que se interesse por filosofia e por humanidades. 20:23:32



Escrito por Fernando Dias Andrade às 19:26:53
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O QUE É UM FILÓSOFO? [PARTE 2 DE 2]

[...Continuação da parte 1:]

     Significa isto que nem todo bacharel em filosofia ou professor de filosofia é filósofo (a não ser sob os olhos da Receita Federal, que incluiu a categoria do “Filósofo” como uma das profissões a informar na declaração do IR). E, também, que dizer que é um filósofo quem apenas ama a verdade, quem apenas é fã dos livros de filosofia, quem reflete ao seu bel-prazer, e coisas equivalentes... tudo isso é depreciar abusadamente a história da filosofia. Não se trata de argumento de autoridade (argumento que, mostra a própria filosofia, é sempre falacioso), e sim de dizer que existe a Filosofia como atividade sistemática e histórica de pensamento que, desde que se descobriu a razão, construiu-se e se construirá como reflexão rigorosa.

     Outro dado importante é a distinção obrigatória entre cientista e filósofo. Não dá para ser as duas coisas ao mesmo tempo. Uma mesma pessoa pode pensar, escrever e agir publicamente ora como um, ora como outro (um caso de dupla personalidade), mas é impossível ser os dois ao mesmo tempo, no mesmo discurso, no mesmo conceito: o cientista fala a partir de teoria, o filósofo fala a partir de reflexão. Não há ciência sem teoria e não há teoria em filosofia (a filosofia não pode ser convertida em doutrina: a filosofia é um modus operandi da reflexão humana que mostra não uma verdade estabelecida, mas como alguém refletiu sobre algo – e uma vez construídos conceitos aí, estes não são verdades fixas, mas concepções que estão aí para ser postas em dúvida). A filosofia é um instrumento de reflexão constante (mesmo quando a reflexão não se conclui); a ciência é um instrumento de conclusão permanente (mesmo quando a conclusão não permanece).
     Voltando a Giddens, ele é sociólogo com formação em economia e uma impressionante compreensão histórico-política das sociedades contemporâneas (recuso-me a dizer “pós-modernas”) e, consistentemente, escreve como sociólogo, vê o mundo como sociólogo, fala de termos políticos como sociólogo com amplas aproximações com os instrumentos conceituais da ciência política (que sempre caminha de mãos dadas com a sociologia), mas não é de forma alguma um pensador que constrói seu pensamento numa perspectiva filosófica. Justamente porque fazer filosofia é essencialmente fazer história da filosofia e análise de pensamento filosófico, para demonstrá-lo seria o caso de tomar um de seus artigos e buscar, nele, fundamentos filosóficos. Não basta tocar nos mesmos assuntos da filosofia política, da ética, do direito. Trata-se de enfrentar os conceitos filosóficos na forma como foram inventados por seus autores, trata-se de propor reapropriações diante de questões completamente novas (Deleuze, que mencionei acima, fazia isso a cada linha: explicava psicologia e ética contemporâneas a partir de apropriações precisas de Platão, lógica estóica, Bergson... e Felix Guattari, psicanalista de formação e de atuação, escreveu com eles diversos textos mostrando idêntica exploração filosófica da filosofia e da psicanálise – no que foi auxiliado por não ser a psicanálise uma ciência em sentido estrito). Em Giddens, não temos isso, o que não nos impede de maneira alguma de lê-lo com prazer e de aprender muito com ele. Mas ao final, os conceitos filosóficos da história da filosofia permanecem intactos. Um filósofo original não deixa intactos os conceitos da história da filosofia. Um leitor de filosofia sabe se aproveitar bem deles, e um mau leitor consegue, apenas, dar à filosofia uma imagem de irrelevância e irracionalismo – que é o que fazem esses celerados da filosofia clínica que dá rios de dinheiro no Rio Grande do Sul.
     Não sei se esclareci minha posição. Mas quanto a o que a filosofia é, sou bem conservador. Não seria diferente com respeito a dizer o que é o filósofo.
     Abraço grande a você e a todos os demais amigos que há tanto tempo não reencontro!
     Fernando



Escrito por Fernando Dias Andrade às 20:12:20
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O QUE É UM FILÓSOFO? [PARTE 1 DE 2]

26/2/2007 21:05:20

            Há uns três dias, um amigo, Lucas, elogiou Anthony Giddens como um dos maiores filósofos pós-modernos. Comentei que ele era sociólogo, e não filósofo, em função da base teórica com que argumentava. Outro amigo, Romualdo, entrou na conversa (uma conversa aberta, em lista de discussão) questionando o que é um filósofo. Respondi:

23/2/2007 10:58:10
 
Romualdo, querido amigo,
 
     De fato, já que eu abri a boca bem que poderia ter me alongado. Mas ainda agora serei breve para não ser chato.
     Assim como haveria várias definições para o que é um jurista, há várias definições para o que seja um filósofo. Quando neguei que o brilhante (ele é mesmo brilhante) Anthony Giddens fosse filósofo, tinha em mente mais uma vez a minha compreensão: filósofo é um intelectual que constrói conceitos a partir da própria história da filosofia. Explico:
     É um intelectual: não apenas é um ser racional (isso todo ser humano é, ainda que nem todo ser humano saiba fazer bom ou pleno uso de sua razão) como é alguém que voluntariamente pensa com rigor e, principalmente, argumenta e age com base naquilo que pensa com rigor. O técnico, o profissional, o cientista, o filósofo... todos podem pensar com rigor, pois todos têm nas mãos instrumentos adequados para guiar o próprio pensamento: o técnico conta com a tecnologia, o profissional conta com a técnica, o cientista conta com a teoria, o filósofo conta com a história da filosofia. Igualmente, todos eles podem ou não trazer à própria vida os resultados daquilo que pensam: o técnico que concebe sistemas de operação, o profissional que concebe padrões de administração, o cientista que concebe paradigmas de aplicação científica, o filósofo que concebe esclarecimentos conceituais. Se não o fazem, não são, ainda, intelectuais. Se o fazem mal, são falsos intelectuais: são charlatães. Se o fazem exclusivamente, aí finalmente são puros intelectuais, porque pensadores fundados em princípios válidos e voltados para sua aplicação prática na vida. Perceba que dou aqui um alcance amplo à noção de intelectual, pois tal como o concebo não apenas um filósofo seria um intelectual. O que marca um intelectual é a sua vida, o seu modo de vida, a maneira como sua vida responde às suas convicções, concepções e, em especial, princípios. Ocorre que, em razão das finalidades, dos quatro tipos que mencionei aqui o filósofo é o único que vê nos princípios – que são origem da ação – também um fim; os demais fazem dos princípios meios para se alcançar um fim fora da busca da verdade, e por isso a sua condição de intelectuais é facilmente enfraquecida. Em outras palavras, tanto para o filósofo quanto para o que se vê usualmente como o intelectual, as próprias idéias são princípio e fim; mas aos técnicos, aos profissionais e aos cientistas é sempre possível aceder à vida intelectual – ainda que isso signifique uma recusa de muito das regras da vida não-intelectual. O intelectual não pode, em momento algum, virar charlatão: revela-se falso intelectual e confirma a insuficiência dos princípios não filosóficos como via de acesso à intelectualidade.
     Constrói conceitos: Para aproveitar o que um dos maiores filósofos da atualidade (matou-se em 1995, mas a sua obra está mais viva do nunca), Gilles Deleuze, diz sobre a filosofia: esta é uma invenção de conceitos. Em poucas palavras, Deleuze disse praticamente tudo. O que é um conceito? É uma concepção intelectual racional de algo. Só isso. Mas para chegar a tal concepção, o pensamento tem de estabelecer e seguir regras que lhe garantam a consistência do que pensa. O conceito é uma concepção consistente de algo. Exemplo: um conceito filosófico de democracia (há inúmeros, uns melhores do que outros) é válido desde que apresente uma consistência fundada numa apropriação válida da história da filosofia política (ele deve responder aos anteriores conceitos de democracia) e adequadamente inserida no pensamento político de seu próprio autor (o conceito deve ser parte de uma rede conceitual inovadora). Assim, ao “explicar” uma coisa, ao explicar uma idéia, ao criar um conceito, o que o filósofo faz é trazer à tona os conteúdos da própria história da filosofia (as melhores respostas podem ter sido dadas não ontem nem hoje, mas há milênios) e, a partir dela, inserir novas questões (antigas, atuais) que tornarão ainda mais denso o caldo conceitual em que se resolveu inserir. Ou seja, para explicar o real é preciso partir de conceitos e, daí, criar novos conceitos ou reinventar os conceitos já inventados. Poucos, muito poucos são os que criam tais conceitos (os filósofos no sentido mais alto) em especial no mundo contemporâneo (em que há tanto “acúmulo” de conceitos). Por isso essa tolerância em chamar de filósofos a quem é ainda um leitor de filosofia. Para ser filósofo naquele sentido alto é preciso “fazer a passagem”: é preciso viver a criação ou recriação dos conceitos, é preciso exigir o rigor no trato do pensamento e das idéias.
     A partir da própria história da filosofia: A filosofia nasceu como investigação do sentido racional das coisas, construiu-se como uma sistemática de investigações do sentido racional do que quer que seja e, desde cedo, investigação racional de si mesma. A história da filosofia é a história de infindáveis aventuras de pensamento voltadas à análise do sentido do real, numa incessante reapropriação dos conceitos e interpretações fornecidos pela própria filosofia. Tudo isso para chegar a esse produto puramente intelectual que é o conceito. É claro que o filósofo pode se referir a qualquer objeto, a qualquer área, a qualquer sistema conceitual (não necessariamente filosófico) para construir suas reflexões. Mas é impossível não partir essencialmente do próprio manancial da filosofia. Sobre isso, duvido que entrem em desacordo comigo. Mas eis o dado mais doloroso: não se deve querer inventar o que já foi inventado. É uma mania que sempre tivemos no Brasil, a de fingir que nenhum filósofo antes de nós já havia dito aquilo que queremos inventar. É inútil fazê-lo porque a razão humana é uma só, e toda verdade alcançada por um filósofo é universalmente válida, assim como toda refutação válida de um filósofo é igualmente universalmente válida. Em filosofia, permanece quem esclarece primeiro, quem inventa primeiro o conceito. Os filósofos são, neste prisma, inventores de sistemas conceituais, de conceitos sobre conceitos, a partir dos quais é possível partir para continuar qualquer caminho de reflexão.

[Continua na parte 2...]



Escrito por Fernando Dias Andrade às 20:11:41
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SOBRE A REPERCUSSÃO EM TORNO DO TEXTO DE RENATO JANINE RIBEIRO [PARTE 2 DE 2]

[...Continuação da parte 1:]

            Trata-se de prevenir o desejo de infringir. Independentemente de qualquer vertente criminológica a teorizar os melhores meios de punição dos crimes, e mantendo como um postulado válido a defesa dos direitos humanos, a punição de um crime (ou delito, contravenção, ilícito, pecado – em suma, qualquer forma de infração) depende da ação sobre o espírito, e por isso mesmo depende tanto da ação sobre o corpo quanto da ação do tempo. Ação sobre o espírito: trata-se de convencer o agente potencial a não praticar o mal, ou de convencer o infrator a não praticá-lo outra vez; ação sobre o corpo: não o suplício da tortura, mas o desgaste dos meios para chegar à infração ou continuar nela; ação do tempo: educação pela dor certamente, mas que surte efeitos só mediante reflexão sobre por que se sente a dor. E por que dói? Porque o homem é tratado como objeto? Isto seria uma dor excessiva, seria violência – inútil para prevenir o desejo de infringir. Nem o corpo nem a mente pedem essa dor que faz do homem um não-homem. Mas são o mesmo corpo e a mesma mente que exigem uma educação afetiva e uma educação racional que mostram como tanto o indivíduo quanto a sociedade se fortalecem graças à superação dos próprios desejos sádicos. Uma necessidade ética exige a conversão da crueldade pela generosidade. Não parece à primeira vista, mas o que é desejado ali na afirmação de Renato Janine Ribeiro – a paga demorada e sofrida – envolve essa conversão: não há verdadeira compensação do crime sem modificação do poder de infração do infrator, e não há esta sem procedimentos que o forcem à prática da generosidade. A prisão não é uma escola que ensine o preso a ser um bom cidadão: é a sua própria reflexão que o fará escolher morar de vida. E reflexão sem dor não é reflexão.
            Escrevo estas coisas não como defesa a Renato Janine Ribeiro, mesmo porque ele não precisa de defesa. Mas justamente por conta da gravidade do fato em torno do qual se motivou seu artigo, e em especial por conta do perigo que uma leitura irresponsável de sua indignação representa para um debate democrático sobre e contra a violência, peço que se pondere sobre o que significa a paga demorada e dolorosa que, sim, merecem aqueles e outros celerados. Não se trata de um elogio nem de uma apologia da morte. Não se trata de uma filosofia da morte, como sugeriu certo jumento. Ao contrário, trata-se de uma defesa da vida, da vida de todos nós, cuja qualidade depende da qualidade das nossas instituições. “Em nada o sábio pensa menos que na morte”, diz Espinosa. Mas é inevitável pensar nela. Ainda assim, só o sábio pode construir o caminho seguro para, apesar do choque entre razão e paixões diante de uma aparição horrenda da morte, continuar sendo homem e, em público, assumir sua posição de intelectual – que consegue ser indignada sem cair na defesa da tortura nem da pena capital.
            Volto à questão da luta contra a nossa própria hipocrisia. Renato Janine Ribeiro é, não por acaso, um dos maiores denunciadores das hipocrisias que pululam nas nossas discussões públicas. Denuncia-a neste seu texto “sobre a pena de morte”, assim como já a denunciara, por exemplo, ao se referir àqueles que combatem a discriminação para pior representada pelo racismo descarado mas rebatem a discriminação para melhor representada pelas ações afirmativas do sistema de cotas da universidade pública. Haverá ou não hipocrisia, pois, na denúncia que os críticos de Renato Janine Ribeiro fazem ao seu artigo? A hipocrisia é a crítica do vício, ou o elogio da virtude, pelo vicioso. O que moveria o hipócrita a criticar a indignação contra os criminosos, senão a angústia por não se ter sido o autor da mesma indignação? O que levaria profissionais pretensamente prudentes na arte do pensamento a perder de vista a verdadeira conclusão do artigo – os intelectuais devem publicar suas verdadeiras indignações a fim de evidenciar o que pode ser feito de nossa sociedade. Quem vê nessa conclusão palavras em defesa da pena capital ou da tortura guarda em seus intestinos o máximo com que pode contribuir para esse debate tão fundamental e tão evitado por quem manda nesta mesma sociedade.
            É preciso lutar contra a nossa hipocrisia. Não devemos ter medo de expressar a indignação que sentimos, apesar de devermos – por uma questão de valor racional da democracia – apagar o nosso ódio animalesco àquele que adoraríamos poder esmagar. “O ódio nunca pode ser bom” (Espinosa de novo), mas ele nunca pode ser evitado diante daquilo que sentimos ser contrário a nós. É impossível evitar sentir ódio. Justamente porque ele não pode ser evitado e porque é sempre ruim, temos de aprender a lidar com ele. A pena de morte é um tradicional instrumento de ódio, porque foca exclusivamente o réu, nosso objeto de ódio, deixando absolutamente intacto aquilo que deveria – por uma questão de valor racional da democracia – ser o objeto do nosso amor: a própria sociedade. Trata-se, por uma necessidade racional mas também por uma necessidade afetiva (Espinosa de novo), de agirmos não motivados pelo ódio, mas sim apesar do ódio: trata-se de reconhecermos, na nossa indignação, o verdadeiro objeto do nosso amor, aquilo que nos fortalece.
            Não se trata portanto de defesa de uma visão hobbesiana do poder do Estado (como se isso, aliás, fosse coisa negativa), mas sim de uma atitude ainda democrática apesar do convite à violência que é sempre feito pela turba ensandecida – da qual, tenham certeza, nenhum sábio fará parte. 20:14:45



Escrito por Fernando Dias Andrade às 19:21:12
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SORE A REPERCUSSÃO EM TORNO DO TEXTO DE RENATO JANINE RIBEIRO [PARTE 1 DE 2]

22/2/2007 17:14:18

            Uma das características mais interessantes do projeto pedagógico da Unifesp Guarulhos (um campus dedicado a Filosofia e Ciências Humanas) é apresentar a todos os alunos dos quatro cursos que inauguram o campus – Ciências Sociais, Filosofia, História e Pedagogia – uma unidade curricular de Leitura e Interpretação dos Textos Clássicos, entendendo-se por isto uma leitura crítica filosófica de clássicos da própria filosofia. Resumindo o conjunto de motivos para tal escolha, é da natureza da própria filosofia a prática dessa leitura (por isso é uma leitura filosófica), ao mesmo tempo que o objeto da filosofia sempre foi a própria filosofia (daí se lerem clássicos de filosofia).
            É claro, porém, que o objeto específico de um tal estudo poderia ser retirado a todo momento de outros horizontes que não a filosofia ou a história da filosofia. Isso é mesmo desejável, ao menos para um momento posterior àquele em que a prática de uma leitura estrutural de um texto filosófico já tenha evidenciado as dificuldades e a responsabilidade intelectual exigida para uma interpretação fiel à concretude do texto. A escolha de textos não filosóficos para uma tal leitura certamente colocaria em pauta o próprio valor – a meu ver irrefutável – de uma leitura filosófica. Porém, de forma alguma se pode supor que um texto filosófico é melhor esclarecido por uma leitura não filosófica, anti-filosófica ou, simplesmente, ideológica. Em parte, apresentar a leitura filosófica de textos de filosofia é avançar os perigos de uma leitura ideológica de qualquer texto, e principalmente de textos filosofia, sejam eles clássicos ou não.
            Pois se meus alunos me solicitassem um exemplo de má leitura de um texto de filosofia, eu não apenas indicaria exemplos já “clássicos” de má leitura de nossos clássicos, mas em especial indicaria este exemplo tão próximo de nós que é a repercussão do texto “Razão e sensibilidade” de Renato Janine Ribeiro (publicado no caderno Mais! da Folha de S. Paulo de 18/2/2007), que tem sido majoritariamente denunciado como um texto a favor da pena de morte e da tortura, fato que seria ainda mais grave por seu autor sempre ter sido um crítico da pena de morte, além de notório pensador da ética e da política.
            Em termos de repercussão, já houve muito por estes dias. Manifestações claramente apaixonadas, contra ou a favor: a mãe ludovicense que compartilha a indignação contra os bandidos, o soteropolitano defensor de qualquer vida indignado contra a indignação contra os bandidos, o florianopolitano que vê como defesa da vingança a indignação contra os bandidos, a professora rio-clarense aliviada com a indignação contra os bandidos e desejosa de mudanças institucionais, a nova-limense que imagina que na indignação contra os bandidos não cabe defesa dos direitos humanos, o ongueiro paulistano que sonha que é desonestidade intelectual denunciar a desumanidade do crime, o sociólogo sebastianense indignado com o uso obscurantista da idéia de obscurantismo, o rábula paulistano indignado consigo mesmo por nunca ter compreendido o conflito das faculdades de direito e filosofia. Curiosamente, se fosse lido no mesmo ânimo apaixonado o texto de Renato Janine Ribeiro somente após o conhecimento de tais objeções, talvez apenas se confirmassem as correspondentes sensações de admiração ou de espanto. Mas seria preciso deixar abaixar a poeira dos próprios valores para apreciar aquilo que Renato Janine Ribeiro efetivamente diz.
            Em nenhum momento Renato Janine Ribeiro defende a pena de morte, nem mesmo a tortura. A respeito deste tema, ele diz que pôs-se a repensar o assunto – e sua conclusão é: “Não sei.” Não é, de forma alguma, uma defesa da validade da pena de morte nem da tortura. Não é, também, uma saída pela tangente, uma recusa em pôr-se no jogo do debate. Ao contrário, o “Não sei” de Renato Janine Ribeiro é uma aposta, ainda, no poder da humanidade em lidar com a tormenta da violência ainda que tenhamos a coragem de nos indignar diante dela. O texto de Renato Janine Ribeiro não é uma defesa da pena de morte ou da tortura, e nem é qualquer uma delas o seu tema principal. O texto é sobre a indignação do intelectual diante das nossas hipocrisias ao tratar da relação entre delitos e penas. Não é sobre o ódio de um intelectual, autor do texto, diante dos assassinos do menino João Hélio; é sobre o direito, a necessidade, a coragem de um intelectual assumir publicamente o choque entre sua razão e suas paixões para, apesar dele mas ainda no meio dele, evitar dar o “sim” à pena de morte, reconhecer publicamente a própria impossibilidade de ser impassível diante da nossa violência mais que cotidiana (nada na morte de João Hélio é novidade), e apontar no meio desse turbilhão uma perspectiva de solução: a luta contra a nossa própria hipocrisia. É uma pena que uma tão cara tomada de posição seja propositalmente negligenciada pelas críticas irresponsáveis que tem recebido.
            Como ler, então, o “acho pouco” de Renato Janine Ribeiro (aquele inserido na frase que é certamente a mais contundente do texto: “Se não defendo a pena de morte contra os assassinos, é apenas porque acho que é pouco.”)? Por que a pena de morte é pouco? Porque ela não vale nada como punição, compensação, justiça. Ela pode valer como espetáculo público de suplício, mas em nada modifica os efeitos do crime causado, nem melhora a sociedade a fim de evitar crimes futuros. E o mesmo pode ser dito a respeito da tortura, essa co-irmã sinistra da pena capital. Mas – dizem os críticos de Renato Janine Ribeiro – não seria a própria tortura a solução desejada pelo nosso autor? O que está no texto é: “Torço para que, na cadeia, os assassinos recebam sua paga; torço para que a recebam de modo demorado e sofrido.” Devemos ler isso como defesa da tortura? Não há menção ao termo “tortura”; não há sequer sugestão de que se trate de tortura esse “modo demorado e sofrido”; ao contrário, esse “modo demorado e sofrido” é exatamente o que é pedido por qualquer forma de penalidade que possa ser pensada pelas nossas instituições – sejam elas democráticas, sejam despóticas; sejam elas judiciais, sejam ilegais.

[Continua na parte 2...]



Escrito por Fernando Dias Andrade às 19:20:18
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POR QUE UM BLOG DESTE PROFESSOR?

22/2/2007 13:55:49

 

            Para me comunicar com meus alunos, o que seria melhor: o Orkut ou o Blog?

            Primeiro, a questão de um web site pessoal. Um sítio pessoal do professor é hoje muito útil na relação com seus alunos, por toda a informação que ali pode ser colocada para acesso destes e de quem quer que se interesse por ela. Foi nesta intenção que eu já havia criado meu primeiro sítio pessoal [http://grus.sites.uol.com.br] em 2000, então voltado para meus alunos na FD-SBC. Nos três anos em que lecionei ali o sítio ficou no ar, disponibilizando praticamente tudo o que eu publicara em revistas especializadas. Por ocasião da minha saída de lá, ele serviu brilhantemente para uma relevante luta pela liberdade de pensamento. E depois que me voltei à pesquisa, mantive no sítio aquele dentre meus textos que sempre considerei o mais professoral de todos, porque era uma carta para meus alunos de 2000 que resumia boa parte do meu curso daquele ano no que tratava diretamente de ética e ética jurídica – justamente, meu artigo “Sobre ética e ética jurídica”, até hoje um dos meus textos preferidos (disponível em http://grus.sites.uol.com.br/eej.pdf).

            Agora é a hora de adaptar o sítio para meus alunos na Unifesp. Mas não gostaria que fosse apenas para os alunos da Unifesp, mas sim que pudesse ser apropriado por qualquer pessoa, naquilo em que fosse viável ser tornado completamente público. É neste espírito que retomo meu sítio pessoal neste momento em que com grande satisfação retorno à docência.

            Mas o sítio pessoal não é, ainda, suficiente. Por ser ele, tal como o concebo, um painel de informações mais ou menos fixas, ele tanto valerá quanto mais permanente puder ser (gosto muito do sítio de Drauzio Varella, se posso indicar um exemplo). Para alcançar tal permanência, ele não pode ser abalroado por impressões, opiniões circunstanciais, recados personalíssimos. Tais peças de volatilidade, porém, também fazem parte dessa mesma relação entre professor e alunos – e para elas o Orkut é uma bem-sucedida solução, ainda que por vezes diabólica por ser o desmonte da língua uma de suas conquistas. O Orkut, painel caótico de recados pregados na praça pública da Internet, por não ter censura alguma além da auto-censura convida à expressão sem reflexão – e por isso mesmo impede a permanência de opiniões melhor refletidas. O Orkut é ótimo para apenas isto, mandar publicamente recados pessoais para que a repercussão seja repartida coletivamente.

            Ainda que a melhor resposta deva vir pela forma clássica, a da correspondência. É por isso que, mesmo perguntado por algum aluno no Orkut, penso que ali qualquer resposta é, em verdade, um recado para todos os alunos. A beleza do Orkut é ser um mural. Para questionamentos verdadeiramente pessoais, só uma carta – ou seja, um e-mail – pode dar a devida atenção. E é para garantir essa atenção, também, que muitas das minhas respostas por e-mail se demoram a ser escritas: uma vez escritas e enviadas, são definitivas, como se não mais me pertencessem exclusivamente já que não mais poderei reescrevê-las.

            Sendo o sítio um painel de informações permanentes, o Orkut um painel de recados voláteis e o e-mail uma dádiva personalíssima, resta a busca por um espaço de fixação de reflexões que ainda não merecem a forma definitiva de um juízo (apresentado nas revistas – e no sítio), mas já exigem tanto a fixidez (impossível no Orkut) quanto a publicidade (indesejável no e-mail). É o Blog esse instrumento que pode garantir a um só tempo a fixação pública de uma reflexão que ainda poderá gerar melhor fruto, mas que desde logo pode ser testemunho deste caminho. Eis por que um blog deste professor. Para pôr a público questões relevantes que tenham sido ou venha a ser tratadas em privado; para retomar mais refletidamente o que apesar de relevante é jogado na alegre feira livre do Orkut; para provocar, por outra via, estas mesmas questões e esta mesma libertinagem. 14:48:09



Escrito por Fernando Dias Andrade às 13:49:53
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FALANDO EM ORKUT...

            O que Larissa Bertani (ex-aluna na FD-SBC) me escreve num recado do Orkut (postado às 21h08):

 

"Olá professor, como vai ?

Você poderia ter um blog ...

Seria ótimo ler você.

Beijos"

 

Minha resposta (postada às 21h51), ainda em estado de perplexidade:

 

"Larissa querida,

Fiquei até arrepiado agora. Criei um blog HOJE, visto que volto, após um hiato dedicado à pesquisa, a ter alunos (no recém-criado curso de Filosofia da Unifesp). Só que ainda é oculto, porque ainda penso em seu formato. Quando estiver publicável, farei questão de te enviar o link.

Seu comentário, saiba disso, serve-me de estímulo a investir no blog. Obrigado!

Beijo,

Fernando"

 

Ou seja: este blog realmente tem uma razão de ser (espero).



Escrito por Fernando Dias Andrade às 21:04:09
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PONTO DE PARTIDA

            Ótima idéia teve meu colega de kit-Gigi, Flávio Tartuce, a de montar um blog. Eu já pensava em fazer o mesmo. Agora que volto à sala de aula, é hora de pôr mãos à obra. O blog tem a desvantagem de não ser manuscrito – minha paixão –, mas tem a vantagem de não ser tão imediatista e descartável quanto o caótico mural de recados que é o Orkut.



Escrito por Fernândrade às 16:41:34
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