Blog do Prof Fernando Dias Andrade


CONTRA O TROTE VIOLENTO

21/02/2008 14:47:06

 

            Está em todos os jornais um caso de trote violento ocorrido ontem, primeiro dia de aula dos calouros do campus Memorial da Universidade Nove de Julho (Uninove), na Barra Funda, cidade de São Paulo. Já pela manhã, como era de se esperar, foram os calouros recepcionados pelos veteranos por meio do trote, brincadeira coletiva que na sua forma mais suave já é uma seqüência de práticas criminosas. Algumas já são consideradas costumeiras, como pintar os calouros, obrigá-los a pedir dinheiro no semáforo, cortar o cabelo dos rapazes – já são todas, porém, práticas violentas e criminosas. Além destas, inovações mais violentas têm se tornando a regra, como embebedar os calouros quase até o coma alcoólico, o que é violento não apenas pelo mal imediatamente causado à saúde (embora os universitários não estejam nem aí pra isso), como é violento principalmente a partir do momento em que o calouro não quer ser embebedado (aconteceu na PUC-SP semana passada). O que dizer, agora, da pura agressão física? Ela sempre costuma ocorrer, mas ultimamente tem ocorrido mais.

            No caso de ontem, um calouro do curso de Comunicação Social do campus Memorial da Uninove assistia aula quando exerceu um direito seu – o de ir e vir, no intervalo das aulas – e foi avistado por veteranos que aplicavam o trote. Notou que, enquanto permanecesse fora da sala de aula, ficaria à mercê do ataque dos veteranos e, como não queria se submeter ao trote nem na sua forma mais leve – outro direito seu –, retornou à sala. Imaginava que lá estaria a salvo, pois foi informado por colegas de que os veteranos não atacavam os calouros nas salas de aula. Estava errado. Os veteranos que o haviam avistado seguiram-no até a sala de aula e, lá chegados, exigiram que ele se entregasse imediatamente ao trote (no mínimo, à pintura do rosto e corpo). Recusou-se – outro direito seu –, alegando que teria de ir ao trabalho em seguida. Foi o suficiente para acender o ânimo criminoso dos veteranos. O trote é originalmente uma brincadeira – de mau gosto, mas uma brincadeira –, até o momento em que se transforma num ataque violento à sua vítima. Aí, de brincadeira o trote se torna uma prática criminosa, e o veterano que obriga o calouro a participar do trote sabe que está praticando um crime. Que houve ontem com o calouro da Uninove? Imediatamente após declarar que não participaria do trote, foi atacado pelos veteranos – ao menos quatro – com socos e chutes durante alguns minutos. Foi o suficiente para que ficasse com o corpo cheio de escoriações e cortes, e o espírito tomado pelo medo e estupor. Os veteranos só pararam quando perceberam que alguns seguranças da Uninove se aproximavam. Sangrando e com muitas dores, o calouro, que já não recebera segurança que garantisse que não fosse submetido ao trote, não recebeu atendimento médico no local – mesmo havendo um serviço de atendimento emergencial no térreo do campus –, não foi atendido pela administração da universidade nem foi auxiliado por ela a se dirigir à delegacia ou ao hospital.

            O calouro vitimado ontem era uma pessoa de bem e um cidadão consciente. Pessoa de bem, estava presente ao seu primeiro dia de aula na Uninove para iniciar um novo passo em sua vida pessoal e profissional. Cidadão consciente, não queria participar do trote para não ser prejudicado em seu trabalho e, uma vez tendo sido vítima tanto de um ataque criminoso por parte dos veteranos quanto de uma omissão de socorro por parte da Uninove, foi à delegacia denunciar o crime – que não deve ficar impune – e, só depois, foi atrás de atendimento médico nos serviços de saúde. Quanto aos veteranos, somente um deles foi identificado (Rafael Rodrigues) e ontem mesmo recebeu da Uninove apenas uma suspensão de quinze dias – que não duvido que ele vá gastar aplicando mais trotes violentos nos calouros. À imprensa, que foi felizmente acionada pelos calouros e desde ontem à tarde esteve presente às portas da Uninove – sem conseguir ser atendida devidamente pela administração da instituição –, chegou essa notícia da suspensão de um dos veteranos agressores e nada mais. Nenhuma explicação quanto à falta de segurança no interior do campus. Nenhuma explicação quanto à falta de socorro médico para este e outros alunos agredidos (sim, outros alunos foram agredidos). Nenhuma explicação, enfim, a respeito da suficiência ou insuficiência dessa ridícula penalidade de suspensão.

            Desse caso triste nós temos, a meu ver, tanto uma evidenciação do descaso das instituições de ensino superior quanto à segurança dos seus próprios alunos (ao contrário, há na Uninove Memorial preocupação evidente quanto à segurança do próprio campus, já que a circulação é controlada por catracas eletrônicas), quanto principalmente do nível de gosto pela violência que é hoje a marca da maioria dos jovens em idade universitária, sejam eles universitários ou não. O trote surgiu como uma brincadeira. Tornou-se uma forma privilegiada de violência física – privilegiada porque nem os agressores nem a instituição são responsabilizados por ela, e violenta porque criminosa. Ontem, ao dirigir-se à delegacia para prestar queixa, o calouro mostrou ser muito maior do que seus colegas veteranos e a própria Uninove: mostrou que, a despeito da violência ou especialmente porque se é vítima dela, é preciso fazer cumprir a lei. A Uninove, ao não tomar medidas preventivas sérias contra a prática do trote violento, mostra-se negligente e merece ser responsabilizada. Os veteranos, ao insistirem na prática do trote, mostram-se simples criminosos. É triste que um estudante universitário seja um criminoso. Apesar disso, o estudante universitário não deve ser tratado com um criminoso privilegiado, simplesmente porque ninguém deve ser tratado um criminoso privilegiado. A instituição de ensino superior que não previne nem pune devidamente a prática do trote – e a punição administrativa minimamente adequada é a expulsão, não a suspensão – não apenas se mostra negligente diante da violência que toma conta do seu interior como se mostra conivente com sua intensificação. A Uninove é uma instituição particular. Instituições públicas de ensino superior são usualmente mais rigorosas do que instituições privadas na punição administrativa dos criminosos que ali estão. Será que o desleixo da Uninove diante da prática do trote violento – manifestado quando não expulsa o autor do trote – não se deve ao desinteresse em perder mais um cliente, o qual pelo jeito paga as mensalidades não para se dedicar aos estudos, mas para se sentir freqüentando um clube em que a violência é publicamente estimulada?

            Ao calouro agredido cabe acionar tanto os seus agressores quanto a universidade. Quem cuidará da parte criminal será o Ministério Público (espera-se), mas ele já tem desde logo o poder de acionar tanto os veteranos pela agressão quanto a universidade por negligência – tudo na ótica da responsabilidade civil. O trote violento tem se tornado marca dos nossos universitários e das nossas instituições, assim como a violência de uma maneira geral tem se tornado marca da nossa sociedade. Está na hora de reconhecermos o trote violento como um tipo específico de crime – da mesma maneira que o assédio sexual passou não faz muito tempo a ser tipificado como crime –, assim como é fundamental que se discuta amplamente a responsabilidade civil das instituições de ensino superior nos casos de trote violento.

            15:51:44



Escrito por Fernando Dias Andrade às 14:55:29
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PLANO DE ENSINO (1º SEMESTRE DE 2008)

17/02/2008 07:18:11

 

            Como sempre, disponibilizo no meu site o plano de ensino do semestre corrente. Novamente lecionarei aos calouros, desta feita dentro da unidade curricular Teoria do conhecimento I (uma introdução às epistemologias de Descartes e Espinosa). O plano de ensino se acha no link http://grus.sites.uol.com.br/plano20081.pdf

            Deixo à disposição também os planos dos semestres anteriores: no link http://grus.sites.uol.com.br/plano20071.pdf está o plano do curso de leitura do Tratado político de Espinosa (dentro da unidade curricular Leitura e Interpretação de Textos Clássicos I, 1º semestre de 2007); e no link http://grus.sites.uol.com.br/plano20072.pdf está o plano do curso sobre a parte I da Ética de Espinosa (com o qual inaugurei na Unifesp a unidade curricular História da Filosofia Moderna I, 2º semestre de 2007).

            07:23:05



Escrito por Fernando Dias Andrade às 06:25:38
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