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SUGESTÕES DE LEITURA
28/2/2007 20:01:22
Provavelmente nenhum curso superior exige tanta leitura quanto o de filosofia. É claro que não há curso superior que não seja pautado também por indicações de leituras intensas e pesquisas bibliográficas constantes, mas no caso do curso de filosofia, sendo a leitura a própria matéria-prima do curso, só temos por que amplificar essa entrega aos textos. O mesmo pode ser dito, no caso do conjunto de cursos da Unifesp Guarulhos, quanto a qualquer curso que se ache incluído num projeto de integração das humanidades; mas é uma verdade específica do curso de filosofia.
Não há padrão, é claro, para um número de páginas ou textos a serem percorridos a cada semana. O que haverá é a constante consciência da necessidade de sempre estar lendo, como se cada minuto sem leitura ou sem reflexão sobre a leitura fosse um minuto desperdiçado no tempo. E porque esse tempo para a leitura pede um aproveitamento efetivo, trata-se não de ler mais, mas de ler melhor, ou antes de ler bem. A boa leitura é a única que se aproveita. E ela é uma leitura que se faz com método para que se descubram as sutilezas do texto; e com prazer para que o ato de ler não se torne um martírio.
O próprio curso de filosofia é um curso de leitura, em certa medida. Um dos seus horizontes é a apresentação da história da filosofia e a discussão das maneiras de como abordá-la, mas um dos modos de operar essa apresentação da história da filosofia é a pura e simples leitura metódica dos clássicos (assunto ilustrado na prática de uma das unidades curriculares do primeiro semestre dos cursos na Unifesp Guarulhos: Leitura e Interpretação de Textos Clássicos). E, ao lado destes textos que compõem o centro das atenções de cada investigação nos cursos de filosofia, há a apresentação da fortuna crítica, ou seja, os textos de comentadores e estudiosos daqueles mesmos clássicos, que são referência obrigatória ou pertinente em função das questões suscitadas no desenvolvimento dos cursos. Só essa leitura metódica dos textos clássicos e a leitura da bibliografia secundária já seria suficiente para preencher todas as horas de estudo que se podem esperar do estudante.
Mas além das leituras solicitadas em razão da rotina de cada curso é fundamental enriquecer a própria pesquisa com a busca de outros caminhos, outras obras que tanto podem servir de apoio aos estudos de filosofia como podem simplesmente revelar questões que deverão um dia ter sido reconhecidas pelo estudante de filosofia. Noutras palavras, é interesse ter contato com textos que apresentam o universo da filosofia – e também o da filosofia no Brasil – a fim de saber onde se está pisando.
Pensando um pouco nisso devo aproveitar este espaço para apresentar, quem sabe toda quarta-feira, algumas indicações de leitura. Indico-as em especial aos meus alunos de filosofia, mas servem como indicação a quem quer que se interesse por filosofia e por humanidades. 20:23:32
Escrito por Fernando Dias Andrade às 19:26:53
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O QUE É UM FILÓSOFO? [PARTE 2 DE 2]
[...Continuação da parte 1:]
Significa isto que nem todo bacharel em filosofia ou professor de filosofia é filósofo (a não ser sob os olhos da Receita Federal, que incluiu a categoria do “Filósofo” como uma das profissões a informar na declaração do IR). E, também, que dizer que é um filósofo quem apenas ama a verdade, quem apenas é fã dos livros de filosofia, quem reflete ao seu bel-prazer, e coisas equivalentes... tudo isso é depreciar abusadamente a história da filosofia. Não se trata de argumento de autoridade (argumento que, mostra a própria filosofia, é sempre falacioso), e sim de dizer que existe a Filosofia como atividade sistemática e histórica de pensamento que, desde que se descobriu a razão, construiu-se e se construirá como reflexão rigorosa. Outro dado importante é a distinção obrigatória entre cientista e filósofo. Não dá para ser as duas coisas ao mesmo tempo. Uma mesma pessoa pode pensar, escrever e agir publicamente ora como um, ora como outro (um caso de dupla personalidade), mas é impossível ser os dois ao mesmo tempo, no mesmo discurso, no mesmo conceito: o cientista fala a partir de teoria, o filósofo fala a partir de reflexão. Não há ciência sem teoria e não há teoria em filosofia (a filosofia não pode ser convertida em doutrina: a filosofia é um modus operandi da reflexão humana que mostra não uma verdade estabelecida, mas como alguém refletiu sobre algo – e uma vez construídos conceitos aí, estes não são verdades fixas, mas concepções que estão aí para ser postas em dúvida). A filosofia é um instrumento de reflexão constante (mesmo quando a reflexão não se conclui); a ciência é um instrumento de conclusão permanente (mesmo quando a conclusão não permanece). Voltando a Giddens, ele é sociólogo com formação em economia e uma impressionante compreensão histórico-política das sociedades contemporâneas (recuso-me a dizer “pós-modernas”) e, consistentemente, escreve como sociólogo, vê o mundo como sociólogo, fala de termos políticos como sociólogo com amplas aproximações com os instrumentos conceituais da ciência política (que sempre caminha de mãos dadas com a sociologia), mas não é de forma alguma um pensador que constrói seu pensamento numa perspectiva filosófica. Justamente porque fazer filosofia é essencialmente fazer história da filosofia e análise de pensamento filosófico, para demonstrá-lo seria o caso de tomar um de seus artigos e buscar, nele, fundamentos filosóficos. Não basta tocar nos mesmos assuntos da filosofia política, da ética, do direito. Trata-se de enfrentar os conceitos filosóficos na forma como foram inventados por seus autores, trata-se de propor reapropriações diante de questões completamente novas (Deleuze, que mencionei acima, fazia isso a cada linha: explicava psicologia e ética contemporâneas a partir de apropriações precisas de Platão, lógica estóica, Bergson... e Felix Guattari, psicanalista de formação e de atuação, escreveu com eles diversos textos mostrando idêntica exploração filosófica da filosofia e da psicanálise – no que foi auxiliado por não ser a psicanálise uma ciência em sentido estrito). Em Giddens, não temos isso, o que não nos impede de maneira alguma de lê-lo com prazer e de aprender muito com ele. Mas ao final, os conceitos filosóficos da história da filosofia permanecem intactos. Um filósofo original não deixa intactos os conceitos da história da filosofia. Um leitor de filosofia sabe se aproveitar bem deles, e um mau leitor consegue, apenas, dar à filosofia uma imagem de irrelevância e irracionalismo – que é o que fazem esses celerados da filosofia clínica que dá rios de dinheiro no Rio Grande do Sul. Não sei se esclareci minha posição. Mas quanto a o que a filosofia é, sou bem conservador. Não seria diferente com respeito a dizer o que é o filósofo. Abraço grande a você e a todos os demais amigos que há tanto tempo não reencontro! Fernando
Escrito por Fernando Dias Andrade às 20:12:20
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O QUE É UM FILÓSOFO? [PARTE 1 DE 2]
26/2/2007 21:05:20
Há uns três dias, um amigo, Lucas, elogiou Anthony Giddens como um dos maiores filósofos pós-modernos. Comentei que ele era sociólogo, e não filósofo, em função da base teórica com que argumentava. Outro amigo, Romualdo, entrou na conversa (uma conversa aberta, em lista de discussão) questionando o que é um filósofo. Respondi:
23/2/2007 10:58:10 Romualdo, querido amigo, De fato, já que eu abri a boca bem que poderia ter me alongado. Mas ainda agora serei breve para não ser chato. Assim como haveria várias definições para o que é um jurista, há várias definições para o que seja um filósofo. Quando neguei que o brilhante (ele é mesmo brilhante) Anthony Giddens fosse filósofo, tinha em mente mais uma vez a minha compreensão: filósofo é um intelectual que constrói conceitos a partir da própria história da filosofia. Explico: É um intelectual: não apenas é um ser racional (isso todo ser humano é, ainda que nem todo ser humano saiba fazer bom ou pleno uso de sua razão) como é alguém que voluntariamente pensa com rigor e, principalmente, argumenta e age com base naquilo que pensa com rigor. O técnico, o profissional, o cientista, o filósofo... todos podem pensar com rigor, pois todos têm nas mãos instrumentos adequados para guiar o próprio pensamento: o técnico conta com a tecnologia, o profissional conta com a técnica, o cientista conta com a teoria, o filósofo conta com a história da filosofia. Igualmente, todos eles podem ou não trazer à própria vida os resultados daquilo que pensam: o técnico que concebe sistemas de operação, o profissional que concebe padrões de administração, o cientista que concebe paradigmas de aplicação científica, o filósofo que concebe esclarecimentos conceituais. Se não o fazem, não são, ainda, intelectuais. Se o fazem mal, são falsos intelectuais: são charlatães. Se o fazem exclusivamente, aí finalmente são puros intelectuais, porque pensadores fundados em princípios válidos e voltados para sua aplicação prática na vida. Perceba que dou aqui um alcance amplo à noção de intelectual, pois tal como o concebo não apenas um filósofo seria um intelectual. O que marca um intelectual é a sua vida, o seu modo de vida, a maneira como sua vida responde às suas convicções, concepções e, em especial, princípios. Ocorre que, em razão das finalidades, dos quatro tipos que mencionei aqui o filósofo é o único que vê nos princípios – que são origem da ação – também um fim; os demais fazem dos princípios meios para se alcançar um fim fora da busca da verdade, e por isso a sua condição de intelectuais é facilmente enfraquecida. Em outras palavras, tanto para o filósofo quanto para o que se vê usualmente como o intelectual, as próprias idéias são princípio e fim; mas aos técnicos, aos profissionais e aos cientistas é sempre possível aceder à vida intelectual – ainda que isso signifique uma recusa de muito das regras da vida não-intelectual. O intelectual não pode, em momento algum, virar charlatão: revela-se falso intelectual e confirma a insuficiência dos princípios não filosóficos como via de acesso à intelectualidade. Constrói conceitos: Para aproveitar o que um dos maiores filósofos da atualidade (matou-se em 1995, mas a sua obra está mais viva do nunca), Gilles Deleuze, diz sobre a filosofia: esta é uma invenção de conceitos. Em poucas palavras, Deleuze disse praticamente tudo. O que é um conceito? É uma concepção intelectual racional de algo. Só isso. Mas para chegar a tal concepção, o pensamento tem de estabelecer e seguir regras que lhe garantam a consistência do que pensa. O conceito é uma concepção consistente de algo. Exemplo: um conceito filosófico de democracia (há inúmeros, uns melhores do que outros) é válido desde que apresente uma consistência fundada numa apropriação válida da história da filosofia política (ele deve responder aos anteriores conceitos de democracia) e adequadamente inserida no pensamento político de seu próprio autor (o conceito deve ser parte de uma rede conceitual inovadora). Assim, ao “explicar” uma coisa, ao explicar uma idéia, ao criar um conceito, o que o filósofo faz é trazer à tona os conteúdos da própria história da filosofia (as melhores respostas podem ter sido dadas não ontem nem hoje, mas há milênios) e, a partir dela, inserir novas questões (antigas, atuais) que tornarão ainda mais denso o caldo conceitual em que se resolveu inserir. Ou seja, para explicar o real é preciso partir de conceitos e, daí, criar novos conceitos ou reinventar os conceitos já inventados. Poucos, muito poucos são os que criam tais conceitos (os filósofos no sentido mais alto) em especial no mundo contemporâneo (em que há tanto “acúmulo” de conceitos). Por isso essa tolerância em chamar de filósofos a quem é ainda um leitor de filosofia. Para ser filósofo naquele sentido alto é preciso “fazer a passagem”: é preciso viver a criação ou recriação dos conceitos, é preciso exigir o rigor no trato do pensamento e das idéias. A partir da própria história da filosofia: A filosofia nasceu como investigação do sentido racional das coisas, construiu-se como uma sistemática de investigações do sentido racional do que quer que seja e, desde cedo, investigação racional de si mesma. A história da filosofia é a história de infindáveis aventuras de pensamento voltadas à análise do sentido do real, numa incessante reapropriação dos conceitos e interpretações fornecidos pela própria filosofia. Tudo isso para chegar a esse produto puramente intelectual que é o conceito. É claro que o filósofo pode se referir a qualquer objeto, a qualquer área, a qualquer sistema conceitual (não necessariamente filosófico) para construir suas reflexões. Mas é impossível não partir essencialmente do próprio manancial da filosofia. Sobre isso, duvido que entrem em desacordo comigo. Mas eis o dado mais doloroso: não se deve querer inventar o que já foi inventado. É uma mania que sempre tivemos no Brasil, a de fingir que nenhum filósofo antes de nós já havia dito aquilo que queremos inventar. É inútil fazê-lo porque a razão humana é uma só, e toda verdade alcançada por um filósofo é universalmente válida, assim como toda refutação válida de um filósofo é igualmente universalmente válida. Em filosofia, permanece quem esclarece primeiro, quem inventa primeiro o conceito. Os filósofos são, neste prisma, inventores de sistemas conceituais, de conceitos sobre conceitos, a partir dos quais é possível partir para continuar qualquer caminho de reflexão.
[Continua na parte 2...]
Escrito por Fernando Dias Andrade às 20:11:41
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